A atriz Cristiane Machado, que revelou ter sido vítima de agressões físicas do ex-marido, o ex-diplomata e empresário Sergio Thompson-Flores, contou a ‘QUEM FOI QUE DISSE?’ que decidiu instalar câmeras no quarto para filmar as agressões de Sergio a fim de se proteger. Veja a entrevista exclusiva!

Como começou seu relacionamento com seu ex-marido Sergio Schiller Thompson-Flores?

Tínhamos amigos em comum. Ele me procurou durante um ano para que fizesse uma divulgação da academia de yoga que ele tinha. Eu estava no ar como Deborah, da novela “A Terra Prometida”, da Record. Como não tinha muito tempo, devido às gravações, quando terminei de gravar, tirei férias e fui a Cuba. Ele comentava sempre as minhas fotos porque o avô dele foi embaixador em Cuba. Então, acabamos tendo afinidades saudáveis, experiências para trocar. Ele era ex-diplomata e de família de diplomata e embaixadores. Um dia, depois de muita insistência, após um ano, marcou uma reunião para conversarmos para eu divulgar a academia dele. Tivemos uma reunião para fazer esse trabalho e descobrimos muitas afinidades. Então, passamos a nos encontrar em feirinhas de produtos orgânicos, igreja, e na época, a mãe dele estava com câncer. Fui até o outeiro da Glória rezar por ela. Após algumas saídas nos beijamos. Tinha a sensação de ter encontrado o grande amor da minha vida. Nosso namoro foi coisa de cinema, tão bonito e encantador… Namoramos e ele pediu a minha mão em casamento no Machu Picchu, ajoelhado, no dia do meu aniversário. Ali achei ter encontrado um grande amor . 

Quando percebeu que vivia um relacionamento abusivo, doente? Como começaram as agressões?

As agressões começaram muito sutis após eu me casar no cível, de papel passado. Começou com uma roupa, ditar o que usar. Ele não queria que atuasse mais e pediu para que não fizesse determinados trabalhos, alegava que estávamos recém-casados. Inclusive, neguei uma novela até que veio a primeira grande agressão em março de 2017. Foi uma grande tristeza. 4 meses de casada! Nunca imaginava que viveria isso. Eu fiquei presa em casa porque não me deixava sair. Ele tinha medo que eu denunciasse. Foram 6 celulares quebrados, muitos objetos pessoais meus destruídos, joias, computador. Ele não admitia eu falar “não”. Tinha que ter controle sobre a minha vida. Eu nunca a dele. Tinha senha do meu celular. Foi uma noite de terror! Ele me empurrou e eu tentando fugir, ele abriu minha cabeça, me machucou muito pelo corpo todo. Me jogou me enforcando na cama e cai no jarrazo de vidro que perfurou meu braço. Levei pontos. Estava toda ensanguentada, machucada de tanto soco, pontapé e ele segurava até eu não conseguir respirar. 

O que te motivou a denunciar o seu ex-marido?

 Quando ele ameaçou me matar e matar meus pais se eu o entregasse. Meu pai é deficiente visual e minha deficiente física. Instalei as câmeras. Vivia coagida, com medo das ameaças dele. Não podia discordar de nada. Até que um dia, após quase 20 dias da primeira audiência, ele chegou muito nervoso porque a filha dele colocou no laudo, na clínica que ele ficou internado, que ele maltratava as mulheres. Pedi para ver o laudo e ele estava muito nervoso, brigando por telefone com a família inteira. Quando pedi o laudo para ver, ele bateu na minha mão e me deu um empurrão e não deixou eu sair de casa. A casa onde vivíamos é muito grande: são 7 portas até conseguir sair do quarto. Eu queria ir embora e ele não deixava, batia na minha cachorra com pau, pegou um fio de telefone grosso e me enforcou e ali achei que ia morrer. Ele falou que ia me matar e acabar com minha vida. Ele apertava tanto meu pescoço, me enforcando, que já não conseguia respirar. Até que soltou e pegou um cinto, quando ameacei sair e disse que acabaria com minha vida. Fiquei em cárcere privado e só consegui sair quando ele deitado, mandou eu deitar, e dormiu. Foi uma madrugada de terror. Amanheci desci e ele querendo as provas que eu tinha contra ele. Falei que subiria e só iria dar ordens para empregada limpar a casa que ele tinha destruído, incluindo meu computador, meu celular e meu HD externo com todo meu acervo de atriz . Quebrou o HD jogando em mim e ameaçando me matar. Saí no dia seguinte escondida, com a roupa do corpo, sem documentos porque ele tinha sumido com minha bolsa e tudo meu. Saí da casa só porque os funcionários chegaram e ele queria disfarçar. Fugi e ele ficou atrás de mim na delegacia e IML para me impedir de denunciar, mas consegui.

Recentemente, você declarou que mesmo com ele preso, você se sente com medo, que mudou seus hábitos, inclusive que por retaliação, ele cortou sua água, luz e gás. Como anda sua vida?

Ele cortou todas as contas que estavam no nome de terceiros. No nome da ex -proprietária da casa que eu nunca tive acesso. As contas da casa sempre foram pagas pela secretaria da empresa dele, tanto que mesmo preso, as contas que tem o nome dele, continuam sendo pagas. Depois de muito tempo, consegui encontrar a ex-proprietária.  Meus amigos me ajudaram, dividindo as contas para eu poder ter luz depois de 3 meses. Ele queria me maltratar. Sabia pelos funcionários todos os meus passos. Ele se acha acima de tudo porque tem poder, dinheiro e influência. Vivo com muito medo, mas preciso enfrentar para sobreviver. Hoje tenho luz por causa de amigos que me ajudaram, mas ele manda recados, faz terror psicológico através de telegramas por procuradores. Preciso ter fibra para seguir.

 Ao denunciar publicamente seu ex-marido por agressão, você tocou num assunto cada vez mais em evidência nos dias atuais: o Feminicídio. Qual a importância das mulheres denunciarem e como foi e tem sido o retorno do público em relação a sua história?

As pessoas têm me acolhido muito. Denunciar o próprio marido é muito difícil. Mas sei que tentei de tudo para que ele fizesse o certo. Até hoje, mesmo preso, ele insiste em me maltratar e agredir psicologicamente. Infelizmente, caráter não se ensina.

Qual ensinamento essa tragédia trouxe para você?

Que precisamos ter coragem e enfrentar. Quanto mais mulheres denunciarem, melhor ficara nosso sistema judiciário para coibir esse crime. 

O que você diria para as mulheres que estão passando pelo mesma situação que você viveu?

Denunciem. Vai ser difícil, mas só com a denúncia vamos conseguir fazer justiça.   

Você está escrevendo um livro onde conta sua história. O que o livro aborda?

 Vou falar da Cristiane antes de tudo acontecer, porque eu já tinha uma carreira, e da Cristiane depois, passando pelo fato em si. Mas também vou comentar sobre as brechas que o sistema dá, as brechas que a Lei Maria da Penha permite, fazendo com que muitas mulheres não denunciem. Quero mostrar a verdade, as dificuldades que encontrei no sistema judiciário, na polícia. Isso virou uma missão para mim até para tentar mudar. Será um alerta. 

 Além do livro, quais são os seus outros projetos ?

Vou lançar um filme em Hollywood que já tinha filmado antes de me casar. Sérgio odiava minha profissão e foi me sabotando e sempre dizia que estávamos recém-casados, que queria formar uma família, para esperar um pouco e com isso foi criando uma dependência. Coisa que sempre fui foi independente. Espero virar essa página e transformar dessa dor em algo que possa ajudar outras mulheres. Quero retomar minha carreira, minha vida em paz.