A música fala sobre as imposições de padrão de beleza feitas às mulheres e faz uma crítica às “mulheres de plástico”. Na letra, as duas cantoras afirmam que “não são brinquedos de ninguém” (“Yo no soy juguete de nadie”) e que são muito mais do que a aparência. “Muñeca Plástica” conversa bem com a narrativa dos últimos lançamentos de Wanessa, “Mulher Gato” e “Loko”, que também levantaram questões relacionadas ao empoderamento feminino ainda que de maneira bastante leve. Seria uma cartada no mercado internacional principalmente o mexicano? Sim, com certeza. Wanessa não esconde suas vontades assim como também fala com tranquilidade sobre sua carreira, tomadas de decisões nem sempre perfeitas e a comparação com outros artistas – que, na verdade, não é uma novidade para ela. Conversamos com Wanessa no dia do lançamento de “Muñeca Plástica” e, além de falar do single, ela nos contou novidades a respeito de seus lançamentos neste ano e vontade de explorar novos horizontes quando se trata de palco.

Primeiro de tudo, queria que você falasse um pouco dessa nova música, desse lançamento…

Wanessa Camargo: Essa música veio para mim pronta, praticamente. Ela já ia ser o tema de saída de “Como Dice El Dicho” e eles acharam que seria legal colocar uma brasileira e me deram essa oportunidade, que é um presente. Estou muito feliz e honrada e só concordei basicamente. Eu realmente gostei, achei a música gostosa. Ela tem uma pegada latina que não está tão igual às coisas que estão acontecendo agora. Tem um diferencial ali, na sonoridade, que é bem legal e gostei do assunto obviamente. Achei um tema bem atual e interessante e tem a ver com o que eu prego em minha vida.

Realmente existe uma linha de conexão dessa música com os seus últimos lançamentos, “Mulher Gato” e “Loko”, né? De certa forma, você voltou a falar sobre as mulheres e empoderamento…

Tem mesmo, né? Sem querer… Sabe que, de um ano para cá, tenho buscado trazer em minhas composições coisas que acho muito importante de falar. Então tem músicas que estão vindo aí e que estou super empolgada para mostrar porque acho que são relevantes para mim. Em “Muñeca Plástica” também acho que seja relevante tratar o assunto dessa forma. Mesmo que seja um tema talvez não seja tão leve, por um lado. Ele está de forma leve, de uma forma gostosa (na música). Não estamos fazendo uma linha séria e rígida… As pessoas têm mania de achar que feminista tem que ser rígida e não é isso. A gente só tem que ter liberdade e direitos iguais. Nada mais é do que isto. Foi muito bacana trocar essa ideia com o México e poder cantar em espanhol, que eu acho muito gostoso, e meu trabalho sempre teve esse intercâmbio com a música latina… Desde o terceiro ou o quarto álbum que lancei. Ali comecei a usar os ritmos latinos com muito mais força.

Essa é a sua segunda parceria com artistas mexicanos, certo? Você gravou o single “Abrázame” com o grupo Camila em 2007. Mas o que te chamou mais atenção na Brisa Carillo, para topar esta colaboração?

Primeiro a beleza, né? (risos) Pensei, “que menina bonita” e também a voz! A voz dessa menina é demais! Quando eu a ouvi no áudio do aplicativo de mensagem (elas duas só se conhecem online) perguntei “é a Brisa cantando?”. A maturidade da voz dela não deixa parecer que ela tem tão pouca idade. Quando você escuta a voz dela na música, a minha voz parece ser mais jovem do que a dela! No sentido de timbre porque o timbre dela é muito maduro, então achei interessante essa encorpada que a voz dela tem. É muito boa!

O clipe foi gravado aqui no Brasil e no México, separadamente. Em algum momento vocês cogitaram fazer esse vídeo juntas?

Simmm, mas eu teria que viajar para lá em janeiro e eu estava de férias com a família… Estava falando há pouco sobre isso: como é conciliar trabalho com a família. Eu não podia deixar meus filhos naquele momento, não dava. Eu vim de uma grande divulgação de “Loko” em televisão e as férias eram muito esperadas. Quando veio a oportunidade de gravar com ela, foi no meio das férias dos meus filhos e eu não podia fazer isso com eles. Então tive que priorizar e eles ganham em tudo! Haha Não tem jeito!

Sempre te achei muito destemida, mas não podia deixar de perguntar se você não tem medo das comparações com outros artistas por optar por cantar em espanhol agora?

Sempre vão falar, né? Você pode cantar em japonês que, para as pessoas, você estará imitando alguém. Em alguns momentos as pessoas que me criticaram de forma correta e eu sempre ouvi. Tipo, quando disseram “poxa, cadê a sua personalidade nessa música? Você está indo pelo mercado”, eu entendo porque acredito que foi isso o que aconteceu. Porém, as pessoas não conhecem meu trabalho todo! Se [a crítica] vem de um fã, que conhece meu trabalho de cabo a rabo e que sabe até mais do que eu, tudo bem. Eles podem falar alguma coisa! Eles me conhecem, já me viram em todas as minhas turnês, ouviram todos os meus CDs e conhecem as músicas. E eles não falam isso. Eles só criticaram em um momento: quando sentiram que eu estava perdendo o caminho da minha própria personalidade. Quem conhece meu trabalho nunca apontou o dedo para dizer que estou copiando alguém porque eles sabem que eu não estou! Desde lá do começo, das comparações com Sandy, até hoje. A minha voz, assim como a voz de todas as outras cantoras, é única. Meu timbre é meu timbre, meu jeito de cantar é o meu jeito de cantar. Seja a mesma música ou o mesmo estilo, nunca vai ficar igual a outra pessoa cantando. Se você for ouvir a rádio hoje, os artistas estão fazendo o que faz sucesso. É assim! Eu sempre mantive a minha vontade ali, claro com referências. Música não é feita de infinitos acordes e às vezes vai parecer com outra mesmo. Não me apego mais a isso, não fico mais presa e me preocupo em entregar algo que eu quero falar de verdade, se vem de dentro e é algo que acredito.

Além das comparações, você também não tem medo de apostar neste mercado latino, que teve um gás nos últimos três anos, mas pode estar saturado?

Depende de como você canta em espanhol. Se você, mais uma vez, for fazer o que todo mundo está fazendo… sim! Tudo tem um ciclo de renovação. Assim como na moda, todas as mulheres resolvem usar alguma coisa e depois vai mudar. É cíclico! Alguns movimentos duram mais, e vêm para ficar, outros menos. Como o funk, por exemplo, veio para ficar. Como o samba, que já foi um movimento, e veio para ficar. Como o sertanejo veio para ficar. As coisas que são muito inovadoras têm tendência a ficar. Quem não souber se renovar e se desafiar, buscar dentro de seu próprio ciclo algo novo, não fica.

“Muñeca Plástica” é tema de saída de uma série de TV no México, a qual a Brisa é uma das protagonistas, e é exibida também em muitos outros países. Aqui no Brasil sabemos a força que tem uma trilha de novela, por exemplo. Você levou isso em consideração na hora de topar essa parceria?

Eu já sabia porque sei que a Televisa vai para o mundo todo. Já conhecemos. Eles têm uma potência gigantesca. Eles estão fazendo todo o investimento para esse lançamento. Eu não estou fazendo nada, a não ser colocar meu corpo e minha voz a disposição. Então esse lançamento é focado no México. É lógico que eles querem usar o meu caminho aqui para trazer a Brisa Carillo e o nome da própria série para cá, mas a ideia mesmo é lançar no México. Fazer esse intercâmbio, né? Quem sabe!

A partir daqui você realmente tem interesse na carreira internacional?

Eu sempre tive. Eu só não tenho mais a disposição que eu tinha há anos atrás, de parar a minha vida aqui e ir para lá. Essa é a diferença. Vontade eu tenho! Qual artista que não quer, cada vez mais, levar sua música para lugares diferentes? Todos querem! Agora ter a disposição de viajar que nem louca ou fazer 30 shows por mês, eu não tenho e não vou ter nunca – e nem quero! Eu prefiro não ganhar milhões. Eu quero estar com meus filhos, ter finais de semana com eles. Quero ter uma vida! Nunca quis ficar milionária com o meu trabalho. Quero ter dinheiro para investir no trabalho de novo. Isso é o que eu quero fazer.

Como falamos no início, você costurou muito bem a temática dos seus lançamentos. Pretende seguir com esta narrativa nas músicas novas?

Vai sair um pouco da narrativa, mas não na força. Tem músicas que são muito fortes no discurso. Essas próximas músicas serão mais românticas e depois eu tenho um outro caminho para fazer um pouco mais pop. Tenho três músicas prontas que são completamente pop, mas segurei elas para lançar primeiro o trabalho romântico. Era uma necessidade e fazia muito tempo que eu não lançava músicas românticas. É o maior traço da minha carreira. Sou uma cantora muito mais romântica do que de balada. Se você for ver, pegar o número de músicas que tenho gravadas, mais de 70% são músicas românticas e 30% é um “Shine It On”. Então é isso que mais me representa, mas por alguma razão, que não sei dizer qual, ficou com esta imagem. Acho que tiveram muitas barrigadas de tempo também, não só por conta da maternidade, mas também por falta de definição, desse momento meio perdido de “pra onde eu vou?”, gravadora, mudança de escritório e empresário… Isso atrapalha muito um artista! Essas mudanças administrativas…

2018 foi um ano muito bom para você. O que podemos esperar de Wanessa em 2019? Pode adiantar algo de seu trabalho com o Pablo Falcão (Chá da Alice)?

Sim! A gente se conheceu no ano passado e estava namorando algumas ideias. Estávamos pensando no que fazer e ele queria muito fazer o Chá comigo. Eu falei para ele que fazer o mesmo show não me motiva mais. Eu gosto, mas estou precisando fazer algo diferente. Então tivemos algumas ideias de trabalhar (em algo) que será um show musical, mas será mais do que isso. Será uma experiência multimídia, meio diferente. Vamos contar uma história muito bonita, mas isso dá trabalho. Ainda estamos roteirizando… Queremos fazer no teatro, porque queremos que as pessoas prestem atenção em algumas outras coisas ali e não só pular e dançar. No teatro você pode ouvir muito bem, tem essa qualidade musical que eu quero e dá outras possibilidades de trabalho também.

E os lançamentos?

Além dessa turnê, preciso lançar esse trabalho novo (romântico) que precisa sair urgente neste ano e ainda tem esse caminho novo que está pintando aí para o México. Como já falei, tenho três músicas prontas, já mixadas, e seis outras músicas que espero lançar mais alguma coisa até junho quando terá o show em Curitiba (no festival All Wrlds). Quero logo lançar e já montar shows com coisas novas!